Monday, April 30, 2012

indiferença
































Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.

Bertolt Brecht

Wednesday, April 25, 2012

Wednesday, March 28, 2012

sunscreen

Gosto disto, porque me faz bem.

do que nada se sabe



The New Moon in the Old Moon's Arms

Image Credit & Copyright: M. Taha Ghouchkanlu

In Nasa Picture of the day, 24th march

A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

Tuesday, February 14, 2012

dia dos namorados


existe para lembrar que é preciso namorar todos os dias...

Wednesday, January 11, 2012

escola nova



a ESGN, escola onde trabalho, está renovada, depois de terminada a 1ª fase de requalificação. apesar de estarmos, ainda, com algumas aulas em monoblocos, há uma parte de escola nova que já usamos. temos uma escola linda, invadida por luz exterior, confortável e de onde nem há vontade de sair. a imagem é do teto da sala dos professores.

costura


ainda os trabalhos de costura que serviram como presentes de Natal para o filho mais novo e para os sobrinhos. as fotografias ficaram esquecidas no telemóvel, enquanto me dedico a novos trabalhos. agora estou a tricotar uma camisola, coisa que já não fazia há anos.
cá estão as fotografias dos rolos para lápis de cor...



cinco estojos diferentes



para os rapazes, tecidos com bolas e de cores fortes


para a rita, cores vivas. usei o lápis cor de laranja, afiado até ao limite, e que ela não queria, ainda, que fosse para o lixo, como um botão




para as mais pequenitas, azul e cor-de-rosa, com bonecos de madeira a prender os elásticos.

Sunday, December 11, 2011

enfeites novos

continuo à procura do que me faz bem à alma... regressei ao crochet e à costura. a máquina velha da minha mãe está, finalmente, a funcionar bem, o que me permite coser e coser e coser... cheia de gosto. amanhã tiro os enfeites antigos da árvore de Natal e vou vesti-la com roupas novas, feitas por mim.



coração vermelho em crochet com lã vermelha, em ponto baixo. só custa o primeiro...



árvore e coração em tecido, floco de neve em crochet com lã branca e fofa.

Saturday, December 3, 2011

presépios

às vezes é necessário parar com aquilo que a toda a hora nos ocupa a cabeça, quebrar rotinas e fazer alguma coisa que nos faça encontrar alguma paz de espírito. e, como se aproxima o Natal, apeteceu-me fazer presépios. trabalhos de mãos, que envolvem só bons pensamentos, descansam-me a cabeça e recarregam-me baterias para o muito trabalho que aí está à porta.
foram feitos com retalhos de tecido, caixas de ovos, esferas de madeira, paus de espetadas, ráfia e uma tela estranha que parece palha, linhas e cola. e muita paciência e também muito gosto, entusiasmo e alegria. ao vivo estão muito mais bonitos do que nas fotografias...





























Thursday, October 13, 2011

hiding my heart away



So this is how the story went
I met someone by accident
who blew me away
who blew me away

It was in the darkest of my days
When you took my sorrow and you took my pain
And buried them away, you buried them away

And I wish I could lay down beside you
When the day is done
And wake up to your face against the morning sun
But like everything I've ever known
you'll disappear one day
So I'll spend my whole life hiding my heart away

I dropped you off at the train station
And put a kiss on top of your head
I watched you wave
I watched you wave
Then I went on home to my skyscrapers
Neon lights and waiting papers
That I call home
I call that home

I wish I could lay down beside you
When the day is done
And wake up to your face against the morning sun
But like everything I've ever known
You'll disappear one day
So I'll spend my whole life hiding my heart away
Away

I woke up feeling heavy hearted
I'm going back to where I started
The morning rain
The morning rain
And though I wish that you were here
On that same old road that brought me here
Is calling me home
Is calling me home

I wish I could lay down beside you
When the day is done
And wake up to your face against the morning sun
But like everything I've ever known
You'll disappear someday
So I'll spend my whole life hiding my heart away
I can't spend my whole life hiding my heart
away

Sunday, September 18, 2011

recomeçar

enviado pela cláudia. quem dera que fosse assim tão fácil corrigir os erros e recomeçar...

Friday, September 16, 2011

decisões

ela decidiu comprar uma casa à beira mar. não precisa de ser muito grande, nem muito bonita. só tem mesmo de ter janelas grandes e uma varanda. isso. uma varanda. onde ela possa recostar-se, numa cadeira de madeira, daquelas de baloiço, fechar os olhos e beber o mar...

homem do leme



Sozinho na noite
um barco ruma para onde vai.
Uma luz no escuro brilha a direito
ofusca as demais.

E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...

E uma vontade de rir, nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

No fundo do mar
jazem os outros, os que lá ficaram.
Em dias cinzentos
descanso eterno lá encontraram.

E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...

E uma vontade de rir, nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

No fundo horizonte
sopra o murmúrio para onde vai.
No fundo do tempo
foge o futuro, é tarde demais...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

Friday, September 9, 2011

se cuidas de mim

(...)
há uma praia depois sombra
uma clareira para iluminar
há um abrigo no meio das ondas
tudo é caminho para iluminar
por isso vem...

arrepiante...

hoje descobri este vídeo, por acaso, enquanto me dedicava a mim própria.
dei-me tempo para me sentar e fazer uma das coisas de que gosto.
sentir.

morrer de amor


Gustave Klimt, O beijo

agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor

agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente

lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor

Valter Hugo Mãe, in O Resto Da Minha Alegria

girl

força...

Friday, July 22, 2011

porto


José Andrés, Vista do Porto

Então, eu comia o Porto. Ali à beira do Douro, abria a boca e enchia-a com o Porto. Pousava-o sobre a língua e mastigava-o com cuidado, para não causar estragos na Torre dos Clérigos, no Pavilhão Rosa Mota ou na estátua do leão e da águia da Boavista. Os portuenses haviam de acreditar que o céu da minha boca era um dia de outono nublado e continuariam a fazer a sua vida normal, voltariam para casa à hora certa do relógio de pulso e os autocarros continuariam a subir e a descer os Aliados sem perturbação. O momento de engolir o Porto seria sereno para a cidade e, para mim, seria o instante em que a memória do seu gosto se tornaria efectiva. O Porto não saberia a molho de francesinha, muito menos a tripas ou a vinho doce, teria um gosto composto por múltiplo, intenso e contraditório, composto por perífrase, hipérbole e oximoro. Eu fechava os olhos, claro, para sentir analiticamente o gosto do Porto. Passava bastante tempo assim, o silêncio tinha vagar para rodear-me.

Sentia todo o caminho do Porto através da minha garganta. Haveria de lembrar-me de goles de água no verão, o fresco da água a descer por mim como uma onda de temperança. Nesse túnel, o Porto, com os seus estádios, com o mercado do Bolhão, haveria de fluir imperturbável, mais lento e justo do que um rio grande, atravessado por pontes de ferro projectadas por Gustave Eiffel. Eu não haveria de me engasgar com o Porto, nem sequer me lembraria dessa possibilidade, nem sequer a consideraria. Seria capaz de respirar grandes volumes de ar fresco e limpo, seria capaz de respirar uma tarde inteira ou, mesmo uma primavera inteira, uma infância inteira. Para o Porto, esse caminho no interior da minha garganta seria menos do que uma brisa. Talvez alguns portuenses, os mais sensíveis à humidade, subissem a gola do casaco por instantes, talvez quisessem cobrir o pescoço, sentir tecido na pele fina do pescoço. O carros continuariam a parar nos sinais vermelhos e a avançar nos sinais verdes, continuariam a encaracolar-se pelos caminhos do silo de estacionamento ou, na rua, continuariam a seguir as indicações de um arrumador com barba, vestido com casacos sobrepostos.

O Porto chegava-me ao estômago à hora certa do entardecer. A tranquilidade seria inquestionável. Todos os poetas da cidade haveriam de ter um acesso súbito de inspiração. O meu estômago não precisava de se dilatar, barrigada, para ser capaz de acolher toda a cidade num plano horizontal, nivelado ao milímetro pelos desníveis habituais das suas ruas e avenidas. Quem estivesse a descer até à Foz, continuaria passo após passo; quem estivesse a subir até ao Marquês, continuaria passo após passo. As gaivotas planariam voltas perfeitas dentro do meu estômago e, assim, seriam capazes de puxar a noite. Chegaria devagar, ao ritmo intermitente das luzes que se começariam a acender na Baixa.

Por acaso simbólico, a absorção começaria precisamente à hora de jantar. As casas, o ar, as ruas, os viadutos, as montras, os jardins, as pessoas, os carros, as palavras, a pronúncia, os monumentos seriam gradualmente absorvidos pelas paredes do estômago. Atravessá-las-iam como uma sombra que fosse progredindo sobre a cidade, como uma maré de nuvens que fosse tapando a lua e as estrelas, uma a uma. Todos os elementos sólidos e não sólidos da cidade, mesmo os invisíveis, transformar-se-iam em carne, na minha carne, no meu sangue a correr pelas minhas veias e a atravessar-me desde a ponta dos dedos, os mesmos que carregam nestas teclas, até às pequenas artérias que irrigam os meus olhos, o meu cérebro. O Porto seria oxigenado pelos meus pulmões, passaria pelo meu ventrículo esquerdo e, depois, pela aorta. A zona das Antas seria uma extensão da minha pele, a Sé também. Quando eu tocasse alguma coisa, quando segurasse um livro ou ouvisse uma canção, só seria capaz de fazê-lo através do Porto. Na verdade, nem eu próprio seria capaz de distinguir-me do Porto. Seria capaz de dizer "o Porto", seria capaz de dizer "eu", mas apenas o faria por preguiça analítica, por mecanismo desonesto de esquematização. Essa mentira seria fácil de desmascarar em cada palavra dita, escrita, em cada silêncio, porque se eu articulasse um som mínimo, seria o Porto que o estaria a dizer; se eu escrevesse uma letra, seria o Porto a escolhê-la; se eu permanecesse quieto, a olhar para a distância e a pensar em imagens de tempos passados, seria o Porto que existiria no meu lugar, a lembrar-se de dias, passados neste ou noutro século.

José Luís Peixoto, in Jornal de Letras (Dezembro 2010)

Thursday, July 14, 2011

depois do trabalho feito...


Wassily Kandinsky, Sequências

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa