Sunday, July 5, 2009

quebrámos os dois

confesso que não gosto muito do vídeo. mas da música gosto tanto, tanto... que é quase pecado...

clandestino

sabe-me bem ouvir. sabe-me bem repousar, de olhos fechados, ouvidos presos a estes sons...

Friday, June 26, 2009

sinto falta de ti


Casal de amantes, Egon Schiele



Sinto falta de ti
do riso pelas tardes
(a tua boca um sol)
do sabor a maçã
(a tua língua um beijo)
do cheiro a malvasia
(o teu corpo um perfume)
do segredo de ficarmos calados
suspensos num olhar
a acender o rosto
a devorar a boca
a incendiar o corpo.

Maria Aurora de Carvalho Homem, Discurso amoroso

Thursday, June 25, 2009

passatempo


capas das três edições deste ano lectivo do jornal escolar O Gafanhoto, da Escola Secundária da Gafanha da Nazaré



Friday, June 19, 2009

150000

Monday, June 1, 2009

cores de (quase) Verão


Monday, May 25, 2009

estou além

Sunday, May 17, 2009

bom dia!




Thursday, May 14, 2009

a maior de todas as rãs



Dizia-se a maior rã de todas as rãs que havia no mundo. Realmente, era grande. Grande e luzidia, no charco onde habitava, mais nenhuma bicheza se lhe comparava em tamanho. Também, para além da rãs, só havia mosquitos.
– Sou o maior bicho do reino animal – dizia a rã gorda, que nunca tinha saltado para fora daquele charquinho de nada, nem uma única vez.
As outras rãs não quiseram contrariá-la. Também eram pouco viajadas.
– Além de ser o maior bicho do reino animal, sou o mais forte, o mais corajoso, o mais bonito, o mais inteligente, o mais…
Quando ela se punha com esta discursata, adeus. As outras rãs mergulhavam, para não terem de ouvi-la.
Até que, um dia, foi beber ao charco um boi. A sombra dele toldou o Sol.
– Venha ver, colega, um bicho tamanhão, mil vezes maior do que a sua gabarolice – disseram à rã matulona as colegas rãzinhas, a estremecerem de riso.
Ela já o tinha visto, mas fez de conta que não ligava.
– Se eu quiser, fico do tamanho dele ou até maior – disse.
– O meu volume está muito concentrado, querem ver?
As outras queriam. Puseram-se à roda dela, a gritarem:
– Cresça e apareça. Cresça e apareça.
A rã gorda fez-lhes a vontade. Engoliu ar e a pele do ventre distendeu-se.
– Mais, mais – gritaram as outras rãs, como se estivessem num circo.
Ela inspirou mais e mais, que até parecia uma câmara de ar ou um colchão de praia.
– Ainda mais – incitavam-na as colegas.
A rã já tinha a forma de um balão. Nada que se parecesse com um boi, mas nunca se vira rã tão batoque como ela.
Tinha a pele de tal forma esticada que se lhe via tudo por dentro.
– Mais, mais – gritavam as outras.
E ela, naquela vontade de ser maior do que um boi, engoliu mais ar, tanto, tanto que rebentou. Pum!
O boi assustou-se e fugiu. As rãs enfiaram-se para dentro de água, nem que tivesse acabado o mundo.
Quando a calma regressou ao charco, voltaram à superfície, numa grande excitação. Não falavam de outra coisa senão daquela rã presumida que quisera igualar-se a um boi.
Ainda hoje é a conversa preferida das rãs, quando coaxam umas com as outras, em noites de Lua Cheia.
António Torrado

Monday, May 11, 2009

ver estrelas...


abusive astronomy, em http://xkcd.com

deimos



Deimos, a mais pequena lua de Marte. Imagem retirada do site Astronomy Picture of the Day.

Thursday, May 7, 2009

o tempo, subitamente solto



Sunset, 1972 (gold, blue), Andy Warhol


o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

José Luís Peixoto

lucky

música com som de verão...

Saturday, May 2, 2009

causas

canção tão simples


Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?
Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?
Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?
Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?

Manuel Alegre

Saturday, April 25, 2009

25 de abril



Esta é uma das imagens que guardo do 25 de Abril. Não do de 74, mas do seguinte, em que se realizaram as primeiras eleições livres em Portugal. Os meus pais foram votar e fizeram desse dia uma festa. Fomos todos a pé, e, pelo caminho, a minha mãe apanhou um braçado de flores do campo. Há, numa caixa em casa dos meus pais, muitas fotografias desse dia. Já nessa altura, soubemos que esse seria um dia importante.
Importante demais, para que se transforme só numa memória...

Thursday, April 23, 2009

i let love in

morre lentamente

Morre lentamente quem não viaja
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente,
Quem destrói seu amor próprio,
Quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente,
Quem se transforma em escravo do hábito,
Repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
Quem não muda de marca,
Não se arrisca a vestir uma nova cor,
Ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente,
Quem evita uma paixão e seu redemoinho de emoções,
Justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
E os corações aos tropeços.

Morre lentamente,
Quem não vira a mesa quando está infeliz,
Com o seu trabalho, ou amor,
Quem não arrisca o certo pelo incerto,
Para ir atrás de um sonho,
Quem não se permite,
Pelo menos uma vez na vida,
Fugir dos conselhos sensatos…

Pablo Neruda

Thursday, April 16, 2009

see you soon



see you soon, Coldplay

Monday, April 13, 2009

negócios com lobos


Imagem da "net"



Esta história custa a contar, mas há histórias assim, tristes, que servem de lição e aviso, para que não voltem a repetir-se os aconteceres que elas relatam. Nem pouco mais ou menos.
Quem me confiou a fábula que vão ouvir foi um pastor.
Soubera-a do avô, que também tinha sido pastor, que a ouvira do avô e ele, por sua vez, do avô dele, numa correnteza de netos e avós que mergulhava no princípio dos tempos. Tão antes de tudo a história se passara, que vinha do tempo em que os animais falavam ou, dito de outro modo, em que os homens e os bichos na mesma língua se entendiam.
Nesse tempo, os animais também contavam histórias aos homens. Esta, no princípio, foi contada por uma ovelha ao primeiro de todos os pastores.
E chega de prólogos. Vamos ao que interessa.
As ovelhas e os lobos, que andavam em guerra, resolveram fazer uma trégua na luta. Foram os lobos que a propuseram. Reuniram-se as duas partes em negociações e, ainda por sugestão dos lobos, decidiram trocar reféns. Para que a trégua durasse até culminar numa paz duradoira, os lobos entregavam à guarda das ovelhas os seus lobinhos e exigiam, em troca, os filhos das ovelhas . Explicavam eles: – Não lhes faremos mal nenhum, porque se o fizéssemos e regressássemos à guerra, vocês vingavam-se nos nossos lobinhos. Só assim se poderá garantir, para sempre, a paz entre nós.
As ovelhas concordaram. Custava-lhes a separação dos seus cordeirinhos, mas admitiram que não custaria menos aos lobos o apartarem-se dos filhos. Igual por igual.
Foram os lobos pequenos viver para o meio do rebanho das ovelhas. Eram tratados com toda as atenções.
Identicamente, os cordeiros, no covil dos lobos, recebiam alimento em abundância, com que encorpavam e cresciam.
Quando, gordos que estavam, os cordeiros se transformaram em belos carneiros e formosas ovelhas, os lobos saltaram sobre eles e comeram-nos.
Pela mesma altura, os lobinhos, que já estavam lobos crescidos, fizeram igual razia, no rebanho das ovelhas.
História terrível, como eu tinha avisado. Mas a partir dela nunca mais nenhuma ovelha nem nenhum bicho pacífico quis ter negócios com lobos. Para que se saiba.


António Torrado