Thursday, December 24, 2009

presépio

Este é o presépio mais bonito do mundo! Foi feito para mim, pela Francisca e pelo Francisco.





Feliz Natal!

dia de Natal

Hoje é dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

Friday, December 11, 2009

mercy

esta música dá-me vontade de... dançar!


Tuesday, November 24, 2009

serenidade

"É necessário ter serenidade para aceitar as coisas que não podemos mudar, coragem para mudar o que pode ser mudado e sabedoria para reconhecer a diferença."

R. Niebuhr

Monday, November 9, 2009

Tuesday, October 6, 2009

as imagens transbordam



As imagens transbordam fugitivas
E estamos nus em frente às coisas vivas.
Que presença jamais pode cumprir
O impulso que há em nós, interminável,
De tudo ser e em cada flor florir?



Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética I

Tuesday, September 29, 2009

da Lua para a Terra


Apollo 11, de regresso à Terra, em 21 de Julho de 1969

Saturday, September 19, 2009

A Propósito de Ti




"Somos felizes. Acabámos de pagar a casa em Outubro, fechámos a marquise, substituímos a alcatifa por tacos, nenhum de nós foi despedido, as prestações do Opel estão no fim. Somos felizes: preferimos a mesma novela, nunca discutimos por causa do comando, quando compras a «TV Guia» sublinhas a encarnado os programas que me interessam, lembras-te sempre da hora daquela série policial que eu gosto tanto, com o preto cheio de anéis a dar cabo dos Italianos da Mafia.

Somos felizes: aos domingos vamos ao Feijó visitar a tua mãe, ficas a conversar com ela na cozinha e eu passeio com o Indiano, filho de uma senhora que mora lá no pátio; assistimos ao básquete dos sobrinhos dele no pavilhão polivalente, comemos uma salada de polvo no café durante os resumos do futebol, e voltamos para Almada à noite, com o jantar que atua mãe nos deu numa marmita embrulhada no «Record», a tempo de assistir às perguntas sobre «factos e personalidades» do concurso em que a apresentadora se parece com a tua prima Beatriz, a que montou um pronto-a-vestir no centro comercial do Prior Velho.

Somos felizes. A prova de que somos felizes é que comprámos o cão no mês passado e foi por causa do cão que tirámos a alcatifa, que as unhas do animalzinho rasparam de tal forma que já se notava o cimento do construtor por baixo. Andamos a ensiná-lo a não estragar as cortinas, pusemos-lhe uma coleira contra as pulgas depois de uma semana inteira a coçarmo-nos sem entender porquê, passados dois dias o Fernando começou a coçar-se também e a acusar-me de cheirar a cachorro e levar pulgas para a repartição, o chefe avisou-me do fundo

- Veja-me lá isso, Antunes

de modo que pus também uma coleira contra as pulgas debaixo da camisa e o Dionísio, espantado

- Deste em cónego ou quê?

E eu, envergonhado, a abotoar o colarinho

- É uma coisa chinesa para o reumatismo, a Jóia Magnética Vitafor é uma porcaria ao pé disto

e como nas Finanças se respeitam o reumatismo e as coisas chinesas, nunca mais me maçaram.

Às segundas, quartas e sextas sou eu que vou lá abaixo levar o cão a fazer chichi contra a palmeira, às terças, quintas e sábados é a tua vez, e o que não vai lá abaixo fica à janela a olhar o bichinho a cheirar os pneus dos automóveis, com um ar sério de quem resolve problemas de palavras cruzadas que os cães têm sempre que farejam postes e Unos.

Somos felizes. Por isso não me preocupei no Sábado com o animal, muito entretido na praceta, e tu atrás dele, de trela enrolada na mão, sem olhares para cima nem dizeres adeus, a nadares devagarinho até desapareceres na travessa para a estação dos barcos. Foi anteontem. Às onze horas tirei o cozido do forno e comi sozinho. Ontem também. Hoje também. Não levaste roupa, nem pinturas, nem a fotografia do teu pai, nada.

Ainda há bocadinho acabei de gravar o episódio da novela para ti. A tua mãe telefonou, a saber porque é que não fomos ao Feijó, e eu disse-lhe que daqui a nada lhe ligavas. Porque tenho a certeza de que tu não te foste embora, visto sermos felizes. Tão felizes que um dia destes vou comprar um micro-ondas para, se chegares a casa, teres a comida quente à tua espera."
António Lobo Antunes, Crónicas

Wednesday, September 16, 2009

Friday, September 4, 2009

os patos preferem a escola

O TEMPO em que os animais falavam, os bichos constataram que o meio em que viviam começava a tornar-se cada vez mais complexo e havia que impor novas hierarquias, estabelecer novos parâmetros de comportamento, uma vez que já não chegavam os seus instintos inatos para enfrentar as modificações do meio. Esta necessidade deu lugar à ideia de ESCOLA: uma estrutura social, que os habilitaria, A TODOS, para enfrentar as crescentes modificações a que assistiam. Foram escolhidos os melhores animais para a docência, isto é, os reconhecidos como mais experientes, alta profissionalização nos seus domínios específicos, grandes títulos em competições. O reconhecimento destas qualificações envaideceu-os, naturalmente, e a maioria esqueceu, desde logo a razão por que estava ali. Com muitas reuniões gerais de professores, muitas reuniões de grupo, reuniões de conselho pedagógico, de departamento, de secções, reuniões de conselho executivo, etc… escolheram o seguinte currículo: Nadar, Correr, Voar, Galpar montes e saltar obstáculos.
Os primeiros alunos foram o Cisne, o Pato, o Coelho e o Gato.
Começadas as aulas, cada professor, altamente preocupado com a sua disciplina, preparava primorosamente a matéria, dava sem perder tempo, procurando cumprir o programa e a planificação do mesmo. Faziam, assim jus aos seus títulos e competências. Mas os alunos iam-se desencantando com a tão sonhada escola. Vejam o caso particular de cada aluno:
- O Cisne, nas aulas de correr, voar e galpar montes era um péssimo aluno. E mesmo quando se esforçava, ao ponto de ficar com as patas ensanguentadas das corridas e calos nas asas, adquiridos na ânsia de voar, tinha notas más. O pior era que, com o esforço e desgaste psicológico despendido nessas disciplinas, estava a enfraquecer na natação, em que era o máximo.
- O Coelho, por sua vez padecia nas matérias de nadar e voar. Como poderia voar se não tinha asas? Em se tratando de nadar, a coisa também não era fácil não tinha nascido para aquilo. Em contrapartida, ninguém melhor do que ele, corria e galpava montes.
- O Gato tinha problemas idênticos ao do coelho, nas disciplinas de natação e voo. Ele bem insistia com o professor que, se o deixasse voar de cima para baixo, ainda poderia ter êxito. Só que o professor não aceitava essa ideia louca: não estava contemplada no programa aprovado e o critério de selecção era igual para todos.
- O pato, finalmente, voava um pouquinho, corria mais ou menos, nadava bem mas muito pior do que o cisne, e desastradamente, embora com algum desembaraço, até conseguia subir montes e saltar obstáculos. Não tinha reprovações a nenhuma disciplina, como os seus restantes colegas o que fazia sumamente brilhante nas pautas finais. Os professores consideraram-no o aluno mais equilibrado, deram-lhe a possibilidade de prosseguir estudos e, com tantos “atributos”, até fomentaram nele a esperança de um dia, poder vir a ser professor.
Os restantes alunos estavam inconformados. Nada tinham contra o pato, gostavam dele, compreendiam o seu grau mínimo de suficiência a todas as disciplinas, mas, perguntavam-se: a espantosa capacidade do Coelho em saltar obstáculos, correr e galpar montes não poderia ser aproveitada para enfrentar as tais novas situações sociais, que os levaram a ter a ideia de ESCOLA? E o Gato? De nada lhe serviria correr e saltar melhor do que o pato? E que utilidade teria, para o cisne, nadar como nenhum outro? –Cada um tinha, de facto, a sua queixa justificada. Escola, pensavam eles era o local onde aperfeiçoariam as capacidades que tinham, de modo a po-las ao serviço da sociedade. Se as coisas já estavam difíceis, que fazer agora com a tremenda frustração de não servirem para nada? Foram falar com os professores. As limitações de cada um eram um facto, eles sabiam que jamais seriam polivalentes, de modo a terem grandes escolhas. Contudo, se reprovassem no ano seguinte estariam exactamente na mesma situação.
Os professores lamentaram muito. Havia um programa, superiormente estabelecido e a questão era só esta: Ninguém tinha média igual ao do pato e, por isso, na sua mediocridade, ele era, estatisticamente superior a todos.
Os outros alunos abandonaram a escola. Desde então por razões obvias a escol atrai mais os patos e, na sociedade são eles que dominam.

In: Noesis, nº20, Setembro de 91

Thursday, September 3, 2009

Tuesday, September 1, 2009

regresso ao trabalho



Lily Allen, The Fear

olhares nas férias (5)

Numa das exposições da Bienal de Cerveira

olhares nas férias (4)


Parque eólico, "algures" entre Arouca e S. Pedro do Sul

olhares nas férias (3)



Covas do Monte, S. Pedro do Sul

olhares nas férias (2)


Rio Minho, Vila Nova de Cerveira

olhares nas férias (1)





Jogos de água no Rio Minho, Parque Municipal de Vila Nova de Cerveira

Monday, August 31, 2009

bittersweet symphony



The Verve, bittersweet symphony

Saturday, August 29, 2009

regresso

após algum tempo de paz, aqui...


Costa Nova

Sunday, July 5, 2009

quebrámos os dois

confesso que não gosto muito do vídeo. mas da música gosto tanto, tanto... que é quase pecado...

clandestino

sabe-me bem ouvir. sabe-me bem repousar, de olhos fechados, ouvidos presos a estes sons...

Friday, June 26, 2009

sinto falta de ti


Casal de amantes, Egon Schiele



Sinto falta de ti
do riso pelas tardes
(a tua boca um sol)
do sabor a maçã
(a tua língua um beijo)
do cheiro a malvasia
(o teu corpo um perfume)
do segredo de ficarmos calados
suspensos num olhar
a acender o rosto
a devorar a boca
a incendiar o corpo.

Maria Aurora de Carvalho Homem, Discurso amoroso

Thursday, June 25, 2009

passatempo


capas das três edições deste ano lectivo do jornal escolar O Gafanhoto, da Escola Secundária da Gafanha da Nazaré



Friday, June 19, 2009

Thursday, May 14, 2009

a maior de todas as rãs



Dizia-se a maior rã de todas as rãs que havia no mundo. Realmente, era grande. Grande e luzidia, no charco onde habitava, mais nenhuma bicheza se lhe comparava em tamanho. Também, para além da rãs, só havia mosquitos.
– Sou o maior bicho do reino animal – dizia a rã gorda, que nunca tinha saltado para fora daquele charquinho de nada, nem uma única vez.
As outras rãs não quiseram contrariá-la. Também eram pouco viajadas.
– Além de ser o maior bicho do reino animal, sou o mais forte, o mais corajoso, o mais bonito, o mais inteligente, o mais…
Quando ela se punha com esta discursata, adeus. As outras rãs mergulhavam, para não terem de ouvi-la.
Até que, um dia, foi beber ao charco um boi. A sombra dele toldou o Sol.
– Venha ver, colega, um bicho tamanhão, mil vezes maior do que a sua gabarolice – disseram à rã matulona as colegas rãzinhas, a estremecerem de riso.
Ela já o tinha visto, mas fez de conta que não ligava.
– Se eu quiser, fico do tamanho dele ou até maior – disse.
– O meu volume está muito concentrado, querem ver?
As outras queriam. Puseram-se à roda dela, a gritarem:
– Cresça e apareça. Cresça e apareça.
A rã gorda fez-lhes a vontade. Engoliu ar e a pele do ventre distendeu-se.
– Mais, mais – gritaram as outras rãs, como se estivessem num circo.
Ela inspirou mais e mais, que até parecia uma câmara de ar ou um colchão de praia.
– Ainda mais – incitavam-na as colegas.
A rã já tinha a forma de um balão. Nada que se parecesse com um boi, mas nunca se vira rã tão batoque como ela.
Tinha a pele de tal forma esticada que se lhe via tudo por dentro.
– Mais, mais – gritavam as outras.
E ela, naquela vontade de ser maior do que um boi, engoliu mais ar, tanto, tanto que rebentou. Pum!
O boi assustou-se e fugiu. As rãs enfiaram-se para dentro de água, nem que tivesse acabado o mundo.
Quando a calma regressou ao charco, voltaram à superfície, numa grande excitação. Não falavam de outra coisa senão daquela rã presumida que quisera igualar-se a um boi.
Ainda hoje é a conversa preferida das rãs, quando coaxam umas com as outras, em noites de Lua Cheia.
António Torrado

Monday, May 11, 2009

ver estrelas...


abusive astronomy, em http://xkcd.com

deimos



Deimos, a mais pequena lua de Marte. Imagem retirada do site Astronomy Picture of the Day.

Thursday, May 7, 2009

o tempo, subitamente solto



Sunset, 1972 (gold, blue), Andy Warhol


o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

José Luís Peixoto

lucky

música com som de verão...

Saturday, May 2, 2009

causas

canção tão simples


Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?
Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?
Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?
Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?

Manuel Alegre

Saturday, April 25, 2009

25 de abril



Esta é uma das imagens que guardo do 25 de Abril. Não do de 74, mas do seguinte, em que se realizaram as primeiras eleições livres em Portugal. Os meus pais foram votar e fizeram desse dia uma festa. Fomos todos a pé, e, pelo caminho, a minha mãe apanhou um braçado de flores do campo. Há, numa caixa em casa dos meus pais, muitas fotografias desse dia. Já nessa altura, soubemos que esse seria um dia importante.
Importante demais, para que se transforme só numa memória...

Thursday, April 23, 2009

i let love in

morre lentamente

Morre lentamente quem não viaja
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente,
Quem destrói seu amor próprio,
Quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente,
Quem se transforma em escravo do hábito,
Repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
Quem não muda de marca,
Não se arrisca a vestir uma nova cor,
Ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente,
Quem evita uma paixão e seu redemoinho de emoções,
Justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
E os corações aos tropeços.

Morre lentamente,
Quem não vira a mesa quando está infeliz,
Com o seu trabalho, ou amor,
Quem não arrisca o certo pelo incerto,
Para ir atrás de um sonho,
Quem não se permite,
Pelo menos uma vez na vida,
Fugir dos conselhos sensatos…

Pablo Neruda

Thursday, April 16, 2009

Monday, April 13, 2009

negócios com lobos


Imagem da "net"



Esta história custa a contar, mas há histórias assim, tristes, que servem de lição e aviso, para que não voltem a repetir-se os aconteceres que elas relatam. Nem pouco mais ou menos.
Quem me confiou a fábula que vão ouvir foi um pastor.
Soubera-a do avô, que também tinha sido pastor, que a ouvira do avô e ele, por sua vez, do avô dele, numa correnteza de netos e avós que mergulhava no princípio dos tempos. Tão antes de tudo a história se passara, que vinha do tempo em que os animais falavam ou, dito de outro modo, em que os homens e os bichos na mesma língua se entendiam.
Nesse tempo, os animais também contavam histórias aos homens. Esta, no princípio, foi contada por uma ovelha ao primeiro de todos os pastores.
E chega de prólogos. Vamos ao que interessa.
As ovelhas e os lobos, que andavam em guerra, resolveram fazer uma trégua na luta. Foram os lobos que a propuseram. Reuniram-se as duas partes em negociações e, ainda por sugestão dos lobos, decidiram trocar reféns. Para que a trégua durasse até culminar numa paz duradoira, os lobos entregavam à guarda das ovelhas os seus lobinhos e exigiam, em troca, os filhos das ovelhas . Explicavam eles: – Não lhes faremos mal nenhum, porque se o fizéssemos e regressássemos à guerra, vocês vingavam-se nos nossos lobinhos. Só assim se poderá garantir, para sempre, a paz entre nós.
As ovelhas concordaram. Custava-lhes a separação dos seus cordeirinhos, mas admitiram que não custaria menos aos lobos o apartarem-se dos filhos. Igual por igual.
Foram os lobos pequenos viver para o meio do rebanho das ovelhas. Eram tratados com toda as atenções.
Identicamente, os cordeiros, no covil dos lobos, recebiam alimento em abundância, com que encorpavam e cresciam.
Quando, gordos que estavam, os cordeiros se transformaram em belos carneiros e formosas ovelhas, os lobos saltaram sobre eles e comeram-nos.
Pela mesma altura, os lobinhos, que já estavam lobos crescidos, fizeram igual razia, no rebanho das ovelhas.
História terrível, como eu tinha avisado. Mas a partir dela nunca mais nenhuma ovelha nem nenhum bicho pacífico quis ter negócios com lobos. Para que se saiba.


António Torrado

Wednesday, April 8, 2009

cores


Vila Praia de Âncora

Thursday, April 2, 2009

arte e tabela periódica

já há algum tempo encontrei este exemplo bonito da junção da arte com a ciência. 97 artistas plásticos, com estilos e técnicas muito diferentes, fizeram 118 ilustrações.



esta imagem é só uma amostra do resultado, que pode ser visto na totalidade em http://azuregrackle.com/periodictable/table/. e vale a pena explorar, com tempo...

Thursday, March 26, 2009

Wednesday, March 25, 2009

if you don't know me by now

You will never never never know me...

Thursday, March 19, 2009

asas


Leonardo da Vinci, Máquina voadora

saberás,
um dia,
que das tuas mãos me nasceram asas...

Sunday, March 15, 2009

a quinta frase

O Porfírio Silva, do blogue Machina Speculatrix, desafiou-me a escrever a quinta frase da página 161 de um livro que tenha à mão.
"Agradeci ao senhor Remigio a informação e dispus-me a descer a avenida de volta a San Gervasio." O livro é "A Sombra do Vento" de Carlos Ruíz Zafón. Hoje, pela manhã, acabei de o ler. Com pena que tenha acabado, porque me apetecia muito que a história continuasse. Vou ler já de seguida "O Jogo do Anjo", do mesmo autor.
Agora fico à espera que a Cláudia, do cr, a Karin, do Orgonio, o Filipe Silva, do e-ventos tecnológicos, o João Henrique, do Lima-limão e a Carla Laranjeira do Deve chamar-se tristeza, digam o que se lê na quinta frase da página 161 do livro que está à mão...

Friday, February 27, 2009

L'Animateur

primeiro prémio do Festival de Berlim Curtas 2008 e também do Anima-Mundi 2008


Monday, February 23, 2009

silêncio


imagem de 23 de Fevereito de 2009, no site Astronomy Picture of the Day


silêncio...
e a luz da lua espelhada
na placidez da ria
silêncio...
e a memória dos dias
em que todos os risos
desaguavam no teu corpo
silêncio...

retrato




Amo-te; e o teu corpo dobra-se,
no espelho da memória, à luz
frouxa da lâmpada que nos
esconde. Puxo-te para fora
da moldura: o teu rosto branco
abre um sorriso de água, e
cais sobre mim, como o
tronco suave da noite, para
que te abrace até de madrugada,
quando o sono te fecha os olhos
e o espelho, vazio, me obriga
a olhar-te no reflexo do poema.
Nuno Júdice, em Pedro, Lembrando Inês

Wednesday, February 18, 2009

passeio

Amanhã vou...



Centro de Ciência Viva de Constância, Jardim Horto Camões, Castelo de Almourol

para serenar

Este é o som da amizade. Para serenar...

partilha



Hoje foi um dia difícil. O melhor momento foi o da partilha do chá, com a minha serena amiga Cláudia. Não é o chá que acalma. É a partilha. Do chá e do tempo que gastamos a deixá-lo arrefecer, e em que aproveitamos para conversar. Quem tem amigos assim, vai conseguindo atenuar o frio de alguns dias...

Monday, February 9, 2009

eclipse


Imagem do site Astronomy picture of the day, em http://apod.nasa.gov/apod/

Esta imagem composta foi feita a partir de 22 fotografias da Lua e do Sol, tiradas de Chisamba, Zambia, durante um eclipse solar total, em 21 de Junho de 2001. As imagens foram tratadas e combinadas, possibilitando a visão de detalhes que só uma exposição ou a observação a olho nu dificilmente revelariam.

pequenas verdades

Não sou de gostar muito de fado. Nem é música que costume ouvir. Esta, ouvi já há muito tempo no rádio do carro. E dei por mim a aumentar o volume. E dei por mim a gostar e a arrepiar-me e a ficar encantada. Como de costume, estava distraída e nem fixei quem cantava. Só hoje encontrei esta música outra vez. Chama-se "Pequenas verdades" e é cantada pela Mariza, no álbum "Terra". Acompanhada por Concha Buika. E vale mesmo a pena ouvir... Mais uma vez alto, bem alto!


Saturday, February 7, 2009

lindo


Lenço das quadras, um dos exemplares dos "Lenços dos namorados" do artesanato de Vila Verde
Apeteceu-me deixar aqui esta imagem. Porque este lenço é lindo!

Thursday, February 5, 2009

de repente

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinícius de Moraes

how does it make you fell



Air, How does it make you feel. Para descontrair...

Terra

Imagens para pensar...

Tuesday, February 3, 2009

nascer da Terra


Terra vista da Lua, numa fotografia tirada em Dezembro de 1968, a partir da nave Apolo 8

Thursday, January 29, 2009

passion

Rodrigo Leão, com a voz de Lula Pena...

Wednesday, January 28, 2009

respira!

Para ouvir alto. Muito alto. Sei que faz mal aos ouvidos, mas é só de vez em quando...

Tuesday, January 27, 2009

plateia

Não sei quantos seremos,mas qu'importa?!
um só que fosse e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.


Miguel Torga, "Câmara Ardente", 1962

Tuesday, January 20, 2009

espera


Fernando Botero, Mulher com um livro 1987

Ela gostava de escrever. E o que gostava mais era de escrever num caderno de folhas lisas e amareladas. A lápis. Não para poder apagar, porque nunca apagava o que escrevia, mas porque o som do lápis no papel lhe dava um prazer especial. Não escrevia com muito cuidado, nem se preocupava em usar palavras muito bonitas, nem figuras de estilo. Escrevia o que sentia e isso fazia com que se sentisse muito bem. Liberta. Para ela, responder-lhe era imperioso. Porque um homem que faz uma mulher sentir-se bem consigo própria, merece que ela lhe dedique o seu tempo. E mais do que tempo, merece que ela se lhe dedique.
E foi o que fez. Com o caderno e o lápis na mão, começou a dizer o que sentia. E foi-lhe dizendo como ele lhe fazia bem, como a fazia ter vontade de tantas coisas que ela julgava adormecidas. Escreveu como gostava de tudo o que ele lhe dizia, como se sentia bem com as palavras que dele recebia. Falou-lhe da vontade que tinha de passear com ele à beira-mar, em dias em que o céu se veste de tons de cinzento, o Sol se envergonha e a chuva inunda a areia de cheiros intensos. E das mãos dele, ansiadas nas suas, do toque da pele, do cheiro da pele, do gosto da pele. E dos olhos, do sorriso e dos espelhos que nele via. E disse-lhe dos desejos, dos sonhos, dos momentos em que, quieta, calada, em sossego, pensava nele. Falou-lhe do tempo e de todas as horas, da ternura de que tanto gostava, dos encantos da placidez dos fins de tarde, que nem queria querer tanto que passassem juntos. E dos primeiros raios de Sol da manhã, que imaginava a cobri-lo, a rodeá-lo, a abraçá-lo, junto com os braços dela. E dos beijos, de que adivinhava gostar, das carícias, dos mimos, dos segredos que queria trocar. Confessou-lhe o fogo que a consumia, o desejo que nela ardia.
Escreveu tudo o que lhe foi passando pela cabeça, sem medos, sem esforço, com tudo dela ali escrito, toda ela ali…
E deitou-se, repousando, à espera.

Monday, January 19, 2009

sons

Para descontrair...



Keith Jarret, Solo Concert

construção

Chico Buarque, Construção

Wednesday, January 14, 2009

amanhecer


amanhecer em dia de muito frio.
da porta da minha casa.

Sunday, January 11, 2009

leitura


Fernando Botero, "A carta", 1976

Enquanto lia, ou enquanto lhe bebia as palavras, as que ele lhe escrevera em folhas de papel branco, a sua pele revestia-se de luz. Luz que era ele. Como se em cada palavra parte dela lhe tocasse. Ela sentia-lhe o cheiro, no cheiro do papel, sentia-lhe a voz a cada letra que juntava, ouvia-o, como se sussurrasse junto a si. E assim, sentia um arrepio, parte dela que gelava, parte dela que fervia…
Ele falava do odor do corpo dela e ela sentia, o odor do corpo dela e o odor do corpo dele…
Ele escrevia sobre o cabelo dela e ela, enquanto o lia, imaginava os seus dedos entrelaçados no cabelo dele…
Ele dizia o sorriso dela e ela ansiava o sorriso dele…
Ele pintava em letras desenhadas o seu rosto, as suas mãos, os seus olhos e o brilho desses olhos, os caracóis do cabelo, as curvas do seu corpo…
E sentia, ela, uma lágrima correr-lhe pela face. E quanto mais lia, mais a lágrima corria. E estremecia, toda ela, na ansiedade do toque da pele dele, sentindo-se já beijada, acariciada… E nunca se tinha sentido tão bonita!
Era urgente responder-lhe!

Saturday, January 10, 2009

bolero de Ravel

Ouvi, no limite do que os meus ouvidos puderam suportar. Assim, tudo o resto foi silêncio...


Monday, January 5, 2009

segredos



Imagem elaborada em www.wordle.net, com base no poema vencedor do VII Concurso Literário Jovem, promovido pela Câmara Municipal de Ílhavo, no escalão 2º ciclo, modalidade Texto Poético.



Segredos...

Que me segreda o vento?
O vento segreda-me frescura,
sempre que sopra do lado do mar.
Segreda-me alegria,
se antes de chegar,
se cruza com um doce olhar.
E conta-me histórias de outras terras,
aventuras de enfeitiçar.
E fala,
como se fosse musica,
quando é brisa,
para me acalmar…

Pedro Nuno Alegrete Augusto, 10 anos