primeiro prémio do Festival de Berlim Curtas 2008 e também do Anima-Mundi 2008
Nós temos cinco sentidos: são dois pares e meio de asas. Como quereis o equilíbrio? (David Mourão-Ferreira)
Friday, February 27, 2009
Monday, February 23, 2009
silêncio

imagem de 23 de Fevereito de 2009, no site Astronomy Picture of the Day
silêncio...
e a luz da lua espelhada
na placidez da ria
silêncio...
e a memória dos dias
em que todos os risos
desaguavam no teu corpo
silêncio...
retrato

Amo-te; e o teu corpo dobra-se,
no espelho da memória, à luz
frouxa da lâmpada que nos
esconde. Puxo-te para fora
da moldura: o teu rosto branco
abre um sorriso de água, e
cais sobre mim, como o
tronco suave da noite, para
que te abrace até de madrugada,
quando o sono te fecha os olhos
e o espelho, vazio, me obriga
a olhar-te no reflexo do poema.
no espelho da memória, à luz
frouxa da lâmpada que nos
esconde. Puxo-te para fora
da moldura: o teu rosto branco
abre um sorriso de água, e
cais sobre mim, como o
tronco suave da noite, para
que te abrace até de madrugada,
quando o sono te fecha os olhos
e o espelho, vazio, me obriga
a olhar-te no reflexo do poema.
Nuno Júdice, em Pedro, Lembrando Inês
Wednesday, February 18, 2009
partilha

Hoje foi um dia difícil. O melhor momento foi o da partilha do chá, com a minha serena amiga Cláudia. Não é o chá que acalma. É a partilha. Do chá e do tempo que gastamos a deixá-lo arrefecer, e em que aproveitamos para conversar. Quem tem amigos assim, vai conseguindo atenuar o frio de alguns dias...
Monday, February 9, 2009
eclipse

Imagem do site Astronomy picture of the day, em http://apod.nasa.gov/apod/
Esta imagem composta foi feita a partir de 22 fotografias da Lua e do Sol, tiradas de Chisamba, Zambia, durante um eclipse solar total, em 21 de Junho de 2001. As imagens foram tratadas e combinadas, possibilitando a visão de detalhes que só uma exposição ou a observação a olho nu dificilmente revelariam.
pequenas verdades
Não sou de gostar muito de fado. Nem é música que costume ouvir. Esta, ouvi já há muito tempo no rádio do carro. E dei por mim a aumentar o volume. E dei por mim a gostar e a arrepiar-me e a ficar encantada. Como de costume, estava distraída e nem fixei quem cantava. Só hoje encontrei esta música outra vez. Chama-se "Pequenas verdades" e é cantada pela Mariza, no álbum "Terra". Acompanhada por Concha Buika. E vale mesmo a pena ouvir... Mais uma vez alto, bem alto!
Saturday, February 7, 2009
lindo
Thursday, February 5, 2009
de repente
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Vinícius de Moraes
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Vinícius de Moraes
Tuesday, February 3, 2009
Thursday, January 29, 2009
Wednesday, January 28, 2009
Tuesday, January 27, 2009
plateia
Não sei quantos seremos,mas qu'importa?!
um só que fosse e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.
Miguel Torga, "Câmara Ardente", 1962
um só que fosse e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.
Miguel Torga, "Câmara Ardente", 1962
Tuesday, January 20, 2009
espera

Fernando Botero, Mulher com um livro 1987
Ela gostava de escrever. E o que gostava mais era de escrever num caderno de folhas lisas e amareladas. A lápis. Não para poder apagar, porque nunca apagava o que escrevia, mas porque o som do lápis no papel lhe dava um prazer especial. Não escrevia com muito cuidado, nem se preocupava em usar palavras muito bonitas, nem figuras de estilo. Escrevia o que sentia e isso fazia com que se sentisse muito bem. Liberta. Para ela, responder-lhe era imperioso. Porque um homem que faz uma mulher sentir-se bem consigo própria, merece que ela lhe dedique o seu tempo. E mais do que tempo, merece que ela se lhe dedique.
E foi o que fez. Com o caderno e o lápis na mão, começou a dizer o que sentia. E foi-lhe dizendo como ele lhe fazia bem, como a fazia ter vontade de tantas coisas que ela julgava adormecidas. Escreveu como gostava de tudo o que ele lhe dizia, como se sentia bem com as palavras que dele recebia. Falou-lhe da vontade que tinha de passear com ele à beira-mar, em dias em que o céu se veste de tons de cinzento, o Sol se envergonha e a chuva inunda a areia de cheiros intensos. E das mãos dele, ansiadas nas suas, do toque da pele, do cheiro da pele, do gosto da pele. E dos olhos, do sorriso e dos espelhos que nele via. E disse-lhe dos desejos, dos sonhos, dos momentos em que, quieta, calada, em sossego, pensava nele. Falou-lhe do tempo e de todas as horas, da ternura de que tanto gostava, dos encantos da placidez dos fins de tarde, que nem queria querer tanto que passassem juntos. E dos primeiros raios de Sol da manhã, que imaginava a cobri-lo, a rodeá-lo, a abraçá-lo, junto com os braços dela. E dos beijos, de que adivinhava gostar, das carícias, dos mimos, dos segredos que queria trocar. Confessou-lhe o fogo que a consumia, o desejo que nela ardia.
Escreveu tudo o que lhe foi passando pela cabeça, sem medos, sem esforço, com tudo dela ali escrito, toda ela ali…
E deitou-se, repousando, à espera.
Monday, January 19, 2009
Wednesday, January 14, 2009
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